Artigos
19/01/11 - Os desafios do novo governo

 

 


Artigo da Meta Consultoria e Comunicação Ltda
__________________________________________________________________

Rio de Janeiro, 19 de Janeiro de 2011

 

Os desafios do novo governo

Nilson Mello*

O mais auspicioso neste ano que se inicia com a posse de novos governantes é constatar que a nossa democracia consolida-se e revigora-se a cada eleição, apesar de suas imperfeições. A propósito, alguém já disse, e com razão, que o regime democrático é imperfeito, mas ainda assim é o melhor que existe.

Depurar uma trajetória político-institucional, a fim de garantir ao Estado a esperada eficácia na prestação dos serviços e no desenvolvimento das ações que a sociedade dele espera, é tarefa para várias gerações. E requer, sobretudo, uma dedicada atenção à formação da própria sociedade.

Sem forte investimento em educação não conseguiremos aperfeiçoar a nossa democracia, independentemente de se promover os ajustes no sistema político-eleitoral que tanto se discute neste momento – e que, de fato, se fazem necessários.

Saliente-se - por mais desconcertante que isso possa ser - que os governantes e os políticos de má conduta são o espelho do eleitorado. Melhorá-los pressupõe educar o povo. Educar formalmente, no sentido estrito, mas também na acepção mais ampla do termo, relacionada à civilidade, o que abrange respeito ao próximo, ao meio ambiente, ao patrimônio público, às leis etc.

O mais relevante, contudo, é que há mais de duas décadas estamos no rumo certo, a despeito dos percalços. Num país que sofreu vários reveses institucionais e superou diferentes períodos de exceção, e cujo eleitorado – exatamente pela deficiência educacional - ainda é refém do assistencialismo e da demagogia, isso já é um feito a se comemorar.

A ação do Estado, ainda fortemente comprometida pelo fisiologismo de partidos beneficiados pelo referido assistencialismo, é um desafio adicional para os governantes de boa-fé. Mas enquanto a depuração não se concretiza – pois levará décadas, uma vez que depende do aperfeiçoamento de nossos cidadãos - devemos ter o foco em ações práticas que continuem a fortalecer nossas instituições e nos permitam manter o curso do desenvolvimento econômico, sem retrocessos.

Neste sentido, os desafios da presidente Dilma Rousseff serão gigantescos. Sem contar com o mesmo carisma popular de seu antecessor, terá que tomar medidas duras (das quais ele se omitiu, por conveniência) e empreender reformas (idem), como a tributária, que certamente encontrarão forte resistência em parcela significativa da classe de política – aqueles parlamentares e “líderes” mais preocupados em continuar a usufruir da prática demagógica do que construir o destino do país.

Sabe-se que a inflação volta a ser uma ameaça – e alta de preços pune com mais rigor justamente a população de renda mais baixa. Isso vai exigir do governo a volta de uma política monetária mais restritiva (alta dos juros) ou a retomada da responsabilidade fiscal (deixada de lado pelo governo anterior), o que significa, contenção de gastos, ou ambas as providências.

A julgar pelos discursos iniciais, a presidente está ciente de que tais medidas são necessárias para se manter a estabilidade da economia – uma conquista que custou caro aos brasileiros. O problema é que, paralelamente, o novo governo terá que aumentar os investimentos em infraestrutura, hoje em níveis muito aquém de nossas necessidades - e também em educação, saúde.

No que toca a infraestrutura, cabe ressaltar que dos R$ 920 bilhões do orçamento federal para 2011, mais de 90% estão reservados para despesas de custeio e gastos obrigatórios e apenas R$ 49 bilhões devem ser destinados aos investimentos – uma cifra insignificante diante das demandas do país. Não é novidade que a infraestrutura logística do país é deficiente. Rodovias, ferrovias, portos e aeroportos congestionados e funcionando no limite de sua capacidade minam a competitividade do nosso setor e pressionam os custos de produção gerando inflação.

Quando se fala em crescimento econômico, portanto, deve-se ter em mente que o aumento do consumo é bem-vindo desde que seja sustentado por aumento da capacidade de produzir, o que pressupõe aumento de investimentos em infraestrutura. Caso contrário, teremos mais pressão sobre os preços, com risco de descontrole da inflação.

Qualquer solução passa necessariamente pela adoção de uma política fiscal que permita melhorar a qualidade dos gastos públicos. Em suma, os desafios estão à altura das esperanças que o país depositou em sua primeira presidente mulher. A torcida é grande.

*Jornalista e advogado, Nilson Mello é sócio-fundador da Meta Consultoria e Comunicação (www.metaconsultoria.com.br e http://blogmetamensagem.blogspot.com) e autor de "Brasil, tão bom quanto o nosso voto - Ensaios e Artigos sobre Estado, governo e sociedade".


 

*Diretor da Meta Consultoria e Comunicação".

PREZADO LEITOR, SEUS COMENTÁRIOS, SUGESTÕES E CONTRIBUIÇÃO SÃO BEM VINDOS.

 

 


Meta Consultoria e Comunicação Ltda.
www.metaconsultoria.com.br
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
tel/fax: 5521-2262-2291




 

 
01/12/10 - Uma estratégia no setor de transportes

 

 
Artigo da Meta Consultoria e Comunicação Ltda
__________________________________________________________________

Rio, Dezembro de 2010

 Uma estratégia no setor de transportes

 Nilson Mello*

O fluxo do comércio exterior pelos portos brasileiros saltou de 506 milhões de toneladas, em 2001, para alcançar quase 800 milhões de toneladas ao término deste ano. Daqui a quatro anos, o volume deve beirar 1 bilhão de toneladas, com previsão de dobrar em mais dez anos.

Nos aeroportos, o número de viagens cresce a uma taxa de 10% ao ano. O movimento aumentou 80% de 2003 a 2009 e hoje já são 130 milhões de passageiros passando anualmente pelos terminais aéreos nacionais. No segmento de cargas aéreas, recente estudo da McKinsey diagnosticou congestionamento de importantes terminais, como Guarulhos (SP), Viracopos (Campinas/SP) e Confins (Belo Horizonte).

Os números impressionam porque são reveladores do dinamismo da economia brasileira, que vem crescendo ano a ano apesar dos abalos internacionais e das restrições internas, mas também servem de alerta para a necessidade de o país estabelecer uma estratégia para modernização de sua infraestrutura de transportes.

A omissão em definir programas de investimentos compatíveis com a crescente demanda por transportes e logística significa potencializar gargalos que já pressionam fortemente os custos de nossa cadeia produtiva, num momento em que as empresas brasileiras precisam conquistar competitividade global sob risco de perder mercados.

Cabe lembrar que o percentual de investimentos em infraestrutura de transportes atualmente no Brasil é de apenas 2,5% do Produto Interno Bruto, de acordo com levantamentos da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Calcula-se que, para eliminar os déficits nos transportes seria necessário investir ao menos 5% do PIB anualmente, por quase uma década. Ressalte-se que para cada 1% de investimentos em infraestrutura é possível obter uma variação positiva de 0,39% do PIB e de 0,61% da renda nacional, de acordo estudo da Fundação Getúlio Vargas.

O atual Plano Nacional de Logística e Transportes (PNLT) do governo federal, em implementação, embora tenha aportes da ordem de R$ 291 bilhões, por si só não é suficiente para eliminar os contraproducentes congestionamentos nos portos e aeroportos – nesses mais perceptíveis pelo público – ou melhorar as deficiências das malhas rodoviária e, sobretudo, ferroviária.

A maior parte das obras abrangidas pelo PNLT está, na verdade, relacionada a projetos de caráter de emergência, paliativo, cujo objetivo principal é restabelecer condições mínimas de utilização das estruturas já existentes. É o caso, por exemplo, do Programa Nacional de Dragagens, que visa a recondicionar os canais de acesso aos terminais portuários, ou ainda a recuperação do asfalto das rodovias federais, nas conhecidas, mas nem tão eficientes, operações emergenciais “tapa-buracos”.

Como são obras para sanar deficiências e não agregar equipamentos e ativos, esses projetos não serão capazes de fazer com que o país alcance um novo patamar no que toca a infraestrutura de transportes.

Oportuno lembrar que a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, a serem realizadas no Brasil, impõem desafios ainda maiores, exigindo mais rapidez no estabelecimento das estratégias a serem adotadas – sob risco de um colapso completo em aeroportos, portos, rodovias e até ferrovias.

Demanda por infraestrutura represada tem impacto negativo na economia. Os custos logísticos no Brasil representam 11,5% do PIB (mais de R$ 230 bilhões por ano), enquanto nos EUA estão na cada dos 5%, o que faz toda a diferença em termos de produtividade e competitividade. Na China e em outros países emergentes – concorrentes diretos do Brasil – o percentual é próximo ao dos EUA.

A questão da perda de competitividade devido a deficiências estruturais é particularmente relevante num momento em que o real valorizado, decorrente de fatores externos - em particular a política monetária expansionista norteamericana e alta dos preços das commodities – dificulta a inserção dos produtos nacionais no mercado internacional.

Na busca de uma nova estratégia para a infraestrutura de transportes será indispensável considerar algumas distorções que agravam os gargalos. A primeira delas é ausência de mecanismos que contribuam para a efetiva integração intermodal. Nesse sentido, uma série de barreiras de ordem regulatória e tributária, como legislação diferenciada entre os estados, ou mesmo normas de seguro não padronizadas, além da falta de interconexão adequada entre portos-aeroportos-ferrovias-portos, deve ser eliminada.

Outro ponto importante seria criar mecanismos que permitam a migração de um percentual maior das cargas das rodovias para outros modais, de custos inferiores, em especial a ferrovia. A mudança é importante tendo vista as dimensões continentais do país. As rodovias nacionais transportam 60% de nossas cargas, enquanto em países similares, em extensão territorial, como Austrália, EUA e Canadá, esse percentual é inferior a 30%. Na China, o índice é de 8%. Nesses países, ferrovias e transportes fluviais e de cabotagem têm ênfase.

Por fim, como a capacidade de investimento do governo esbarra em limites orçamentários, é indispensável estabelecer normas que facilitem a participação de empreendedores nessa nova onda de investimentos em infraerstrutura de transportes. Regras que dificultam a ação da iniciativa privada no setor devem ser reavaliadas. Até porque os exemplos de gestão privada em portos e aeroportos são auspiciosos.

A questão não deve ser vista apenas como uma meta de governo, mas como uma diretriz de Estado, com visão de longo prazo e ações para serem implementadas imediatamente.  

 


*Diretor da Meta Consultoria e Comunicação".

PREZADO LEITOR, SEUS COMENTÁRIOS, SUGESTÕES E CONTRIBUIÇÃO SÃO BEM VINDOS.  

 

 

Meta Consultoria e Comunicação Ltda.
www.metaconsultoria.com.br
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
tel/fax: 5521-2262-2291

 

 

 
16/11/10 - Modelos de produção e as eleições

 

Artigo da Meta Consultoria e Comunicação Ltda
__________________________________________________________________

 

Rio, Novembro de 2010

Modelos de produção e as eleições

Nilson Mello*

O proselitismo de esquerda, em queda na Europa desde o colapso do bloco soviético, mas ainda influente no Brasil, sobretudo no meio acadêmico, nas escolas e universidades, bem como nos sindicatos, condena o lucro e com ele o modelo capitalista de produção de riquezas pelo que seria seu vício de origem: a apropriação pelo empregador de uma parcela do esforço do trabalhador. 

 O diagnóstico de Marx ao estruturar o conceito de “mais valia” foi o de que, assim como na sociedade feudal o homem não tinha domínio sobre a terra em que trabalhava - e da qual conseguia a sua subsistência -, na sociedade capitalista ele tampouco é completamente livre, pois precisa vender sua força de trabalho para sobreviver.  A servidão teria sido transmutada em salário.

O proselitismo de hoje calcula que, em cada oito horas trabalhadas, o empregado receberia, em média, apenas o equivalente a duas em salário.

A crítica ignora que o empregador precisa se remunerar pelos riscos inerentes à operação, pelo seu papel de organizador da mão de obra (em que é mais eficiente do que o Estado) e para fazer frente aos custos de produção, incluindo investimentos, recolhimento de impostos e compra de insumos, entre outros.

Ignora ainda que, no Brasil especificamente, o empregador paga mais de 100% de encargos sobre os salários – o que impede que a remuneração do trabalho seja relativamente maior. O economista Roberto Giannetti da Fonseca lembrou recentemente que os encargos trabalhistas representam 9% do PIB no Brasil, enquanto a média nas economias emergentes, maiores competidores do Brasil, é de 4,5%.

As críticas ao modelo capitalista omitem ainda o fato de que, na economia planificada, em que o Estado concentra, em maior ou menor grau, os meios de produção e determina cotas de produção e de consumo (e, no extremo, que tipo de consumo), o trabalhador também retém apenas uma parte do resultado de seu esforço, pois a manutenção das estruturas produtivas requer igualmente a expropriação de uma parcela de seu trabalho. O agravante, nesse caso, é o fato de não haver qualquer garantia de que essa parcela expropriada contribua para uma economia competitiva, com produtos e serviços de qualidade, uma vez que as regras de mercado (oferta e demanda; livre concorrência, entre outras), presentes no modelo capitalista, foram eliminadas pelo planejamento burocrático. 

O cenário torna-se opressor se considerarmos que, na busca pelo bem estar coletivo, o Estado socialista tende a oprimir o indivíduo, tolhendo seus anseios e restringido a sua liberdade. 

 Marx concebeu um mundo em que a riqueza e os bens seriam partilhados por todos. Suas idéias tinham um caráter humanitário, razão pela qual seduziu intelectuais ao longo dos séculos XIX e XX. Sua obra é extraordinária e por isso teve tão forte influência na filosofia política e na economia. Mas restringir as relações sociais hoje ao embate entre capital e trabalho é algo que limita as possibilidades da própria humanidade.

As nações que adotaram o socialismo – hoje seriam escassos os exemplos - entraram em colapso devido à ineficácia de suas economias e ainda devido aos choques com os princípios democráticos, como a liberdade de expressão. Nessas nações, o ímpeto pessoal, o desejo de prosperar e o mérito foram ignorados em prol de uma suposta igualdade absoluta. Ora, remunerações idênticas ou similares para talentos e empenhos distintos são altamente injustas – e contraproducentes.

No entanto, apesar do fracasso do socialismo na prática, o proselitismo referido de início permanece vigoroso, com nítida influência no espectro político brasileiro. Sob essa concepção de Poder, minoritária, porém, operante, a eleição de Dilma Roussef – bem como as de Lula – teria sido uma mera vitória eleitoral.

A verdadeira transformação – prega a corrente - deve ser feita de forma paulatina, sem revolução e dentro do modelo existente; e as condições seriam mais adequadas a partir de agora. Não foi outra coisa que o ex-ministro José Dirceu quis dizer quando comparou os estilos de Dilma e Lula para concluir que o presidente (mais pragmático, menos ideológico) estava acima do PT enquanto a presidente eleita (supostamente mais ideológica, menos pragmática), sim, encarnaria melhor a essência do partido e de seus ideais revolucionários.

Indícios de que a “transformação” sorrateira das instituições – e por extensão do modelo de produção - estaria em curso são claros, e o exemplo mais notório é o III Programa Nacional dos Direitos Humanos, instituído por decreto no final do ano passado pelo governo Lula, após ser urdido dentro da Casa Civil comandada na época pela presidente eleita.

O Decreto em questão, ainda a ser regulamentado pelo Legislativo, quebra ou “flexibiliza” princípios básicos da economia de mercado e da democracia. Da mesma forma, o esforço do ministro da Secretaria de Comunicação, Franklin Martins, em instituir mecanismos para “disciplinar a opinião” e controlar a imprensa, doa a quem doer, também é revelador dessa visão de mundo.

No entanto, como é certo que os brasileiros não elegeram Dilma Rousseff sob essa perspectiva – até porque a transformação radical do modelo jamais foi explicitada – resta, terminadas as eleições, apostar num governo que estará ciente de seu papel como garantidor dos princípios democráticos e das regras de economia de mercado, visando o pleno desenvolvimento do país. As primeiras declarações da presidente eleita, ao menos, foram neste sentido.

Cabe, no entanto, o alerta de que o caminho híbrido, de um “capitalismo de estado” (poucos grupos usufruindo de benefícios concedidos pelo Estado, ao invés da efetiva concorrência), também denominado de “socialismo de mercado” e já em gestação no Brasil, ao contrário de sintetizar as vantagens dos dois modelos, potencializa os seus maiores defeitos.

Comentários sobre o artigo


*Nilson Mello é diretor da Meta Consultoria e Comunicação Ltda.

PREZADO LEITOR, SEUS COMENTÁRIOS, SUGESTÕES E CONTRIBUIÇÃO SÃO BEM VINDOS. 

 

Meta Consultoria e Comunicação Ltda.
www.metaconsultoria.com.br
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
tel/fax: 5521-2262-2291

 
07/10/10 - A informação e a migração de votos

 

 
Artigo da Meta Consultoria e Comunicação Ltda
__________________________________________________________________

  

Rio, Outubro de 2010

A informação e a migração dos votos

 Nilson Mello* 

Análise política é um exercício de conjetura, em que especulação e certo grau de simplificação, sobretudo na atribuição de rótulos, são inevitáveis. Com a ressalva feita é possível estabelecer alguns parâmetros e projeções.

José Serra chegou a 32,6% dos votos pelos seus atributos – experiência na vida pública e extenso currículo político – mas também pelo fato de reunir as melhores chances de derrotar o continuísmo. Dessa forma, representou no domingo passado o voto útil capaz de impedir a manutenção, no Poder, do grupo que governa o país há oito anos.

Essas eleições provaram que a transferência de votos é um recurso com amplas chances de sucesso – e também que os institutos de pesquisa estão errando mais do que se espera deles. Mas, ao contrário do que se disse ao longo dessa semana, ainda não demonstraram o poder da mídia como fator preponderante. Pelo menos não da mídia no sentido mais estrito, de informação com potencial de gerar senso crítico.

Os reiterados escândalos do governo do PT, fartamente divulgados desde o “mensalão”, não foram capazes de evitar a reeleição do presidente Lula, de minar seus índices de aprovação (hoje na casa dos 80%), tampouco de impedir a transferência de votos para uma candidata que, até poucos meses, era considerada um “poste” – não apenas pela desconcertante falta de carisma, mas também por ser uma novata em campanhas eleitorais.

Cabe lembrar que apenas 4,5 milhões de brasileiros leem jornais regularmente, num universo de mais de 130 milhões de eleitores, de acordo com o Instituto Verificador de Circulação (IVC). Acrescente-se que, para ser bem informado, não basta ter acesso ao noticiário ou assistir ao Jornal Nacional: o bom uso da avalanche de informações que nos chegam diariamente pressupõe boa formação. É fato que quanto menor o grau de escolaridade, mais frágil o distanciamento crítico.

Também é fato que Dilma Roussef tem proporcionalmente menos votos nas camadas com maior grau de escolaridade. A candidata do PT carreou o voto ideológico e o voto adesista.

O voto adesista é representado por segmentos econômicos contemplados por políticas típicas de um “capitalismo de Estado” e também pelas parcelas da população mais suscetíveis ao discurso do grupo que detém a máquina pública. Para adesistas, mudanças podem significar a perda de vantagens.

Mas o voto adesista não é imutável. Não, ao menos, na mesma medida do voto útil em José Serra, do voto de opinião em Marina Silva ou do voto ideológico na própria Dilma. O desafio do candidato tucano no segundo turno, portanto, será a conquista não apenas de parte dos eleitores de Marina, mas também do eleitor não ideológico da ex-ministra. O desafio de Dilma, por sua vez, será se desgrudar dos escândalos.

A senadora Marina Silva, com seus 20 milhões de votos (19,6% do eleitorado) e melhor desempenho na história de um terceiro colocado na disputa presidencial, terá óbvia influência sobre a migração dos votos. Seguindo a coerência do raciocínio (algo imponderável em política), o voto de opinião permaneceria, em sua maioria, no campo da contestação, contrário ao continuísmo. Mas isso apenas em tese.

Um outro componente, ainda insondável, entrará em campo. O que causa mais rejeição ao eleitor de Marina: José Serra ou Dilma Roussef?

A falta de motivação nessas eleições, em razão, talvez, da ausência de empatia dos dois finalistas, ficou refletida no alto índice de abstenção (na casa dos 25%), um dos maiores da história. Para o cientista político Jairo Nicolau, a questão do voto obrigatório ainda não é algo que mobilize a sociedade brasileira a ponto de justificar a sua discussão, e revisão. Ora, não há prova maior da inadequação do voto obrigatório numa democracia do que a abstenção demonstrada nas urnas.

Nicolau, contudo, é desses analistas que preferem raciocinar de braços dados com a ideologia e não à luz dos fatos. Para ele, pior do que o voto obrigatório é o serviço militar obrigatório. Confundiu categorias – um dever constitucional, ainda que questionável, com um direito fundamental transfigurado em ato compulsório pela esperteza demagógica – e, assim evitou, em recente debate na TV, enfrentar o óbvio: o voto obrigatório, num país em que grande parcela do eleitorado ainda tem baixa escolaridade, privilegia o discurso populista e demagógico? Cria massas manipuláveis e vulneráveis ao assistencialismo?

Que partido ou corrente política sai poupado desse debate? Dilma? Serra? Marina? O PT, o PSDB, o PV? Com a palavra Tiririca, o campeão de votos.

Comentários sobre o artigo


*Diretor da Meta Consultoria e Comunicação".

PREZADO LEITOR, SEUS COMENTÁRIOS, SUGESTÕES E CONTRIBUIÇÃO SÃO BEM VINDOS.
 

                                          Meta Consultoria e Comunicação Ltda.
www.metaconsultoria.com.br
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
tel/fax: 5521-2262-2291

 
 
28/08/10 - Eleições e mídia, com 133 milhões nas urnas

 

 
 
Artigo da Meta Consultoria e Comunicação Ltda
_____________________________________________________________

 

Rio, Agosto de 2010

Eleições e mídia, com 133 milhões nas urnas

Nilson Mello*

O grande espaço dado pela mídia às eleições não tem sido capaz de transformá-las em assunto estimulante. A ampla cobertura do pleito até se justifica pelo papel que os meios de comunicação devem exercer entre as instituições democráticas - que é o de manter a sociedade informada do que diz respeito ao seu destino.

Dar transparência ao que se relaciona aos candidatos e às normas eleitorais equivale a dar transparência aos atos públicos de maneira geral. Nesta linha de raciocínio, que justifica a ênfase sazonal, Thomas Cooley, constitucionalista americano do século XIX, escreveu:

“A imprensa (...) registra os acontecimentos do dia a fim de apresentá-los aos leitores (...). A sua importância capital, então, consiste em facilitar ao cidadão o ensejo de trazer perante o tribunal da opinião pública qualquer autoridade e o próprio governo, compelindo-os a se submeterem a um exame e a uma crítica sobre sua conduta. Do mesmo modo, serve para sujeitar a idêntico exame, e com fins idênticos, todos aqueles que aspiram a funções públicas”.

Dar ampla cobertura às eleições é, portanto, dever indiscutível dos meios de comunicação, assim como, procurar manter-se informado, acompanhando o noticiário, é a contrapartida dos eleitores. Contudo, a repetição de uma retórica demagógica, mais relacionada a atos de vontade do que a programas exequíveis de Estado, e de escândalos que não escandalizam mais, transformou o que essa mesma demagogia chama de “festa da democracia” num aborrecido processo midiático.

O horário gratuito eleitoral – que não é informação jornalística, mas propaganda compulsória – tende a exacerbar a sensação de enfado, gerando mais indiferença ou desdém no público do que interesse, ainda que muitos acabem decidindo seu voto por ele.

Quando essa cobertura será mais interessante? Talvez no dia em que o eleitor estiver mais qualificado, obrigando os meios de comunicação a uma análise mais criteriosa e sutil do processo. E impondo ao candidato e, por consequência, ao eleito (parlamentar e governante), o fim da demagogia em prol do conteúdo. O culpado, no fim das contas, ainda é o Estado, incapaz de garantir a plena qualificação do eleitor em 20 anos de democracia.

No dia 03 de outubro, 133 milhões de brasileiros, 69% da população, deverão ir às urnas fazer suas escolhas entre 25 mil postulantes, na 12ª eleição desde 1988, marco da redemocratização. De acordo com o instituto Vox Populi, a maior fatia dos eleitores, hoje, já tem o ensino médio completo, o que não ocorria nas eleições anteriores.

Essa evolução, desde que não seja mera mudança formal, ou seja, desde que o ensino médio esteja, de fato, preparando os brasileiros, não deixa de ser um alento para que, num futuro não muito remoto, possamos assistir a um noticiário eleitoral estimulante. E, mais importante do que isso, possamos, em conjunto, aperfeiçoar as escolhas de parlamentares e governantes.

 
Comentários sobre o artigo 


*Diretor da Meta Consultoria e Comunicação".

PREZADO LEITOR, SEUS COMENTÁRIOS, SUGESTÕES E CONTRIBUIÇÃO SÃO BEM VINDOS.

             Meta Consultoria e Comunicação Ltda.
www.metaconsultoria.com.br
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
tel/fax: 5521-2262-2291

 
<< Início < Anterior 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Próximo > Fim >>

Página 19 de 20