Artigos
29/10/14 - A imprensa como ringue

A imprensa como ringue

Por Nilson Mello
27/05/2014

   Não é exagero dizer que mais de 98% das notícias que lemos nos jornais, ouvimos no rádio ou assistimos na televisão tiveram origem numa assessoria de imprensa.  A rigor, os meios de comunicação nada mais são do que um palco de confronto de ideias. Vamos além: os meios de comunicação nada mais são do que um ringue de embate de interesses.

   Lidas assim, de primeira, as afirmações acima podem parecer exageradas e ferir os mais românticos ou ingênuos. Contudo, elas sintetizam uma visão realista do papel desempenhado por jornais, revistas, TVs, rádios e, mais recentemente, portais, blogs e sites jornalísticos.  

   E é exatamente por isso que toda instituição, seja pública ou privada, deve procurar ocupar o seu espaço na “mídia”, fortalecendo a sua imagem e, com isso, fazendo a legítima defesa de seus interesses e do segmento que representa.

   Com esses esclarecimentos, já fica mais fácil entender por que se tornou tão relevante – por que não dizer decisivo? – para uma entidade sindical estabelecer um dispositivo de ação estratégica na área de comunicação.

   Se indivíduos têm interesses diversos, nada mais natural que empresas e entidades de classe também tenham divergências quanto a políticas públicas, projetos governamentais, marcos regulatórios etc.

   O embate, na verdade, nada tem de excepcional ou constrangedor – ele faz parte da vida democrática e, desde que travado dentro da lei, é bom que ocorra, porque contribui para o esclarecimento da sociedade. Mais que isso, pode contribuir para o aperfeiçoamento da sociedade.

   O próprio governo – ou os governos, em suas diferentes esferas e instâncias - saberá também, por meio dos instrumentos e sistemas de comunicação de que dispõe, participar das discussões, justificando, para a opinião pública, a decisão tomada. É claro que o embate seria ainda mais construtivo – e democrático – se, hoje, no Brasil, houvesse maior pluralidade de meios: os leitores, ouvintes e telespectadores brasileiros mereceriam ter mais (e melhores) opções.

   Afinal, concentração, em qualquer setor, tende a ser prejudicial. Se abordarmos a questão pelo enfoque estritamente econômico, considerando que vivemos num sistema capitalista, podemos até dizer que o segmento de mídia no país está precisando de um forte choque de mercado que garanta aos “consumidores” um leque maior de escolhas.

    Mas, como não podemos viver no Mundo ideal (que, no caso, seria a plena diversificação de meios e, por consequência, de visões do mundo), essa é mais uma razão para não deixarmos de expressar nossas opiniões e nos posicionarmos politicamente (na acepção ampla, mas também na estrita do termo) junto à opinião pública.

   Neste ponto, um alerta se faz necessário: quanto mais pró-ativa for a instituição, no sentido de se esforçar para ocupar um espaço positivo na mídia, divulgando suas atividades e conquistas, mais sucesso terá em defender os seus interesses, sejam eles institucionais ou mesmo comerciais, sobretudo nos momentos críticos, com noticiário adverso. Ou seja, não se pode deixar de participar desta “briga” e de se estar permanentemente pronto para ela. Até por que os adversários não abondarão o ringue – não deixarão o palco onde exibem suas “ideias”.

*Artigo publicado na Revista Unificar nº39.

 
28/10/14 - Democracia e legitimidade

Democracia e legitimidade

Por Nilson Mello
27/10/2014

   A reeleição da presidente Dilma Rousseff neste domingo, com 51,6% dos 105,5 milhões de votos válidos, entre 143 milhões de eleitores que estavam aptos a ir às urnas, foi legítima e incontestável não importando a pequena margem de diferença para o seu adversário ou o fato de sua vitória ter sido decorrência de uma votação mais expressiva nas regiões menos desenvolvidas do país.

   Nas verdadeiras democracias – e o Brasil é uma delas, sem dúvida, após a sétima eleição geral consecutiva livre e direta - os votos têm exatamente o mesmo peso, independentemente da qualidade do votante. Não há, portanto, voto diferenciado.

   Da mesma forma, a legitimidade do vencedor em pleitos majoritários não é conferida em dosagem, ou seja, não oscila em decorrência da maior ou menor diferença de votos entre o primeiro e o segundo colocados. Do ponto de vista prático, a maioria mais um tem o mesmo efeito de uma maioria ampla.
Contudo, o desenho da votação em cada região do país associado ao perfil dos eleitores nos permite algumas análises.

   A presidente Dilma Rousseff construiu a sua vitória graças às Regiões Norte e Nordeste, onde obteve 56% e 72% dos votos válidos, respectivamente. O opositor Aécio Neves venceu no Sul, Centroeste e Sudeste, onde alcançou, respectivamente, 60%, 58% e 57% dos votos válidos. Na Região Sudeste, uma ressalva: embora tenha vencido no geral, ganhando em São Paulo com boa margem, e no Espírito Santo, o candidato da oposição perdeu em Minas Gerais, seu reduto eleitoral, e no Rio de Janeiro.

   A que conclusão chegamos? Se a pergunta fosse direcionada a um militante, simpatizante ou eleitor de Dilma, ele certamente responderia que o Norte e o Nordeste, mais pobres, somados aos extratos menos favorecidos das regiões mais prósperas (Sudeste, em especial), elegeram a candidata do PT porque acreditam que ela fez mais pela sua melhoria de vida – e ainda poderá fazer mais.

   De um jornalista militante do PT, ainda antes da votação de ontem, durante o balanço do primeiro turno e no bojo das pesquisas de intenção de voto para a rodada final, ouvi textualmente o seguinte sobre a vantagem da petista nos estados nordestinos: “São Paulo regride, enquanto o Nordeste progride”.

    Na contramão da crença ideológica, que turva a lente com que se enxerga o mundo, distorcendo a realidade, encontramos outra explicação mais plausível. A candidata à reeleição conseguiu uma vitória mais expressiva nos estados menos desenvolvidos e nos grotões mais pobres justamente porque, nessas regiões, o nível de escolaridade é mais baixo e, por consequência, menor é a capacidade do eleitor para avaliar erros e acertos.

   Se levarmos em conta os enormes problemas que o país enfrenta na economia – um conjunto de indicadores amplamente desfavoráveis, a começar pela inflação e pela ausência de crescimento - e ainda os inúmeros casos de corrupção envolvendo integrantes de governos do PT, com deletérias ramificações nas estatais, a relação entre desinformação e voto em Dilma salta aos olhos – para aqueles que querem ver, evidentemente.

   Acrescente-se a isso o fato de as camadas menos favorecidas da população – e, portanto, menos informadas - estarem mais sujeitas à manipulação e a práticas espúrias como o assistencialismo. Uma menor parcela – como o jornalista citado acima – vota em Dilma por orientação ideológica, e a despeito de todas as incongruências programáticas. Mas esses, claro, são uma minoria.  

    Mais uma vez, seria preciso ser completamente desinformado para acreditar – ou ter má-fé para repetir - que os 51,03 milhões de brasileiros (48,4% dos votos válidos) que apostaram em Aécio Neves neste segundo turno são privilegiados e insensíveis que não se preocupam com o bem-estar dos mais humildes, ou com o destino do país. Vale dizer que metade dos eleitores do tucano ganha até três salários mínimos apenas, o que desmonta (mais uma vez, para quem quiser ver apenas) o marketing falacioso.

   A propaganda do governo martelou que o voto contra Dilma seria o voto contra os pobres. Numa democracia ainda tão desigual como a brasileira, é a pobreza a mola propulsora do círculo vicioso da política – é dela que se alimentam os maus dirigentes.

    Haverá esperança real de mudança quando os nossos governantes passarem a garantir para a educação uma prioridade estratégica, com parâmetros rigorosos de ensino (não foi o que fez o PT em 12 anos). O esclarecimento é o antídoto que depura a democracia, livrando-a de suas impurezas, entre elas o populismo e a demagogia. Não podemos discriminar o voto, atribuindo critérios de legitimidade em função dele. Não seria justo.

    Mas podemos qualificar o votante. O processo é demorado, exigirá esforço e paciência, sobretudo dos mais esclarecidos. Enquanto isso, só nos resta reconhecer a legitimidade dos eleitos, preservando as regras do jogo.

 
16/10/14 - O fetiche da barbárie

O fetiche da barbárie

Por Nilson Mello
16/10/2014

   Os sunitas formam o ramo majoritário e, historicamente, o menos radical do Islã. Ao menos assim eram reconhecidos até o surgimento do Isil, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, na sigla em inglês (ou Isis, Estado Islâmico do Iraque e da Síria), hoje apenas Estado Islâmico (EI).


   Calcula-se que 84% dos muçulmanos pertençam a essa corrente, de posição mais neutra em comparação aos xiitas, kharijitas e outras denominações mais recentes.


   O radicalismo político e o fundamentalismo religioso eram tradicionalmente traços associados aos xiitas, não aos sunitas. Basta lembrar que o termo “xiita” serviu por um bom tempo para designar, no Brasil, parlamentares e políticos de posição mais radical, geralmente de esquerda.


   O apelido em tom irônico surgiu na esteira da revolução iraniana de 1979, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini e que levou à deposição do xá Reza Pahlevi. Khomeini pôs fim à monarquia artificial, totalitária e pró-ocidente de Pahlavi e inaugurou um Estado islâmico de caráter fundamentalista.


   No mundo contemporâneo, o Irã criado por Khomeini, morto em 1989, é certamente a mais nítida expressão de uma teocracia, ainda que hoje a revolução islâmica iraniana já não tenha mais a intensidade dos seus primeiros anos.


   Pouco tempo depois, na arrastada e sangrenta guerra entre Iraque e Irã (1980-1988), sunitas e xiitas travaram um confronto formal que resultou em 1,5 milhão de mortos. Com as economias dos dois países devastadas pela guerra, não houve vencedor formal – apenas perdedores.


   O antagonismo de Teerã ao ocidente e, em especial, aos Estados Unidos, fez com que o Iraque do então ditador Saddam Hussein - e de maioria sunita - contasse com o total apoio americano. Especula-se que o estímulo para que Bagdá rompesse o antigo acordo de fronteira com o país vizinho nos territórios ocupados pelas minorias curdas (estopim do conflito) tenha sido, na verdade, urdido em Washington, interessado na desestabilização do regime islâmico.


   Em 1990 e em 2001, nas guerras do Golfo e do Iraque, os alvos da política externa americana e de seus “planos estratégicos” passaram a ser Saddam Hussein e o próprio Iraque. A ocupação que se seguiu à guerra de 2001-2003 não teve êxito - como fica claro agora - em estabelecer um sistema político estável no país, com equilíbrio de forças.


   Alijados do poder, embora majoritários, sunitas forjaram o seu Estado Islâmico radical. A desestruturação da ditadura síria de Bashar al-Assad e a fraqueza institucional da presuntiva democracia iraquiana foram os terrenos férteis para a sua propagação.


   O Irã de hoje está prestes a se unir ao Ocidente e a países árabes na coalizão militar destinada a conter o avanço do EI – coalização que conta também com curdos e turcos. O regime de inspiração xiita volta a combater forças sunitas, mas agora tendo americanos e iraquianos como aliados.


   O sumário histórico pontua os acontecimentos, mas não explica o principal: como um grupo que adota um grau de extremismo sem precedentes, de barbárie ímpar, pode atrair para suas fileiras uma legião de voluntários procedentes de nações, culturas e até religiões tão distintas? Qual a explicação para o “fetiche” da violência ser tão poderoso?


   Estimativas das Nações Unidas indicam que os cerca de 30 mil combatentes do EI sejam procedentes de mais de 80 países, sendo que 2 mil deles são ocidentais - americanos, franceses, ingleses, dinamarqueses e alemães, entre outras nacionalidades.Entre os combatentes, há mulheres ocidentais, segundo notícias divulgadas esta semana.


   Tão chocante quanto ver dezenas - às vezes centenas - de homens, prisioneiros do EI, dirigirem-se de mãos atadas e em longas fileiras, de forma resignada, para a execução sumária, ou reféns ajoelhando-se com serenidade, para serem decapitados a faca fria, é saber que milhares de jovens ao redor do mundo são seduzidos por uma fórmula estarrecedora e ao mesmo tempo simples: o terror na sua forma mais brutal e gratuita. Não são ideias ou propostas que sobressaem no EI, mas a violência em estado bruto.


    A conclusão é que, para acabar com as guerras e a violência, seria preciso reinventar o ser humano.

 

Desempenho econômico – O mundo não enfrenta uma crise econômica generalizada, ao contrário do que o governo afirma, para tentar justificar o baixíssimo desempenho da economia brasileira, cujo crescimento será próximo de zero em 2014.
Este é o principal ponto do manifesto assinado por 164 economistas, de diferentes escolas e correntes - inclusive heterodoxos - e divulgado esta semana, com críticas à gestão da economia no governo Dilma Rousseff.
Entre os países vizinhos, a Colômbia deverá crescer 4,8% este ano com inflação de 2,8%; o Peru, 3,6%, com 3,2% de inflação; o México, 2,4% de avanço de PIB, com 3,9% de aumento de custo de vida. A inflação no Brasil deverá estourar o teto da meta, de 6,5%, sem garantias de que haverá crescimento.
Os dados comparativos jogam por terra a ideia - equivocada - que tem sido martelada pelo marketing oficial segunda a qual foi preciso deixar a inflação escapulir um pouco para não prejudicar a atividade econômica. Não se cresce com inflação.
No mundo, destaca o manifesto com base em dados da OCDE, só há quatro países a rigor em crise: Argentina, Itália e Islândia, além do Brasil. O documento faz um alerta: com crescimento baixo e inflação em alta, os índices de emprego no Brasil não tardarão a cair. Mais detalhes no link abaixo:

http://www.infomoney.com.br/mercados/eleicoes/noticia/3635648/164-economistas-criam-manifesto-rebatem-dilma-nao-crise-internacional

 
01/10/14 - Casca de banana?

Casca de banana?


Por Nilson Mello
01/10/2014

   O dia em que o governo e os nossos governantes não ocuparem tanto espaço em nossas mentes será sinal de que as coisas, finalmente, entraram nos eixos. Boa parte de nossas paranoias (não todas, é claro) estariam eliminadas. Estamos longe disso. Os políticos, e em especial os que “estão” candidatos, nos obrigam a um estado de alerta permanente com suas ideias (?), propostas e, o que é pior, decisões.


   Nem sempre é fácil decifrar o que está por trás daquilo que dizem e fazem. E é preciso reconhecer que, muitas vezes, somos profundamente injustos ao interpretar como má fé aquilo que, na realidade, não passa de desconhecimento de causa ou incompetência administrativa. Sim, às vezes os seus erros nada mais são do que burrice.


   Ocorre, contudo, que o inventário de malfeitos na trajetória republicana é tão extenso que realimenta o cacoete paranoide. Portanto, na contramão do benefício da dúvida para a qual o senso de cidadania muitas vezes nos impele, emerge, claro, aquela sensação de que estamos prontos a pisar, novamente, numa casca de banana sob o invólucro de nova norma regulatória.


   Apesar de seu caráter politicamente correto, ou pretensamente correto – o que certamente visa a desestimular qualquer reação ou questionamento – novas normas não raro camuflam o que não nos convém. E aqui vamos nós de novo.


   Há poucos dias a presidente Dilma Rousseff esbravejou com o fato de a imprensa - que no Brasil é livre por força de princípio expresso na Constituição - ter vazado informações contidas no depoimento do delator da Operação Lava Jato, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa.


   Na ocasião, a presidente disse que o papel da imprensa não era o de investigar, mas simplesmente o de informar – um equívoco (só isso mesmo?) conceitual que mereceu um longo artigo neste Blog, no último dia 24, sobre o papel da imprensa (texto mais abaixo). Sem nos alongarmos no que já foi exaustivamente comentado, vale dizer que o papel da imprensa é, antes de tudo, o de investigar. Mais: jornal que não opina, só publica versões e transcreve declarações, não merece ser lido.


   Em menos de uma semana a presidente e candidata retomou o assunto, mas dessa vez sob outro viés. Não falou em “controle social da mídia” ou “disciplina da opinião jornalística”, eufemismos já muito empregados por seu partido e que, na prática, significam censura. Evitou qualquer menção ao conteúdo das notícias ou aos métodos empregados pelos meios da comunicação – entre os quais a inalienável investigação – no trabalho de produzir (grifo meu) noticiário. Ateve-se a uma questão mercadológica.


   A forte concentração de poder econômico, afirmou a presidente, é prejudicial à democracia. E é verdade. O setor mereceria um choque de concorrência que promovesse a pluralidade dos meios – e, por consequência, de opiniões (tema de comentário do dia 25, neste blog). Porque o problema não está em um grupo de comunicação se opor ao governo. O problema é termos poucos grupos de comunicação, contrários ou não aos governos.


   A discussão é, mesmo, de regulação de mercado, de capitalismo de mérito: medidas que possam ampliar a concorrência entre empresas de jornalismo, assim como é feito, por exemplo, nos segmentos de cervejas ou de aviação.


   A questão é saber se um governo e um partido que sempre se manifestaram contra a imprensa de caráter privado, por entendê-la como “burguesa” (seja lá o que isso signifique em pleno século XXI), poderá estabelecer uma regulação do setor que não acabe por amordaça-lo. O que se pretende é uma saudável concorrência, com pluralidade de meios e opiniões, não censura oblíqua, disfarçada de norma econômica. Os exemplos da Venezuela e da Argentina autorizam os nossos temores. Fiquemos atentos às cascas de banana.

 

 
24/09/14 - O papel da imprensa

O papel da imprensa

Por Nilson Mello
24/09/2014

   Em um de seus mais recentes rompantes, expresso, como de costume, ao sabor da têmpora, e da forma categórica que lhe é mais peculiar, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o trabalho da imprensa não é o de investigar, mas o de informar. Os meios de comunicação, segundo ela, não podem ser comparados ao Judiciário, ao Ministério Público e à Polícia Federal.

   O intuito foi o de expressar o seu descontentamento com o fato de a imprensa trazer à tona detalhes das investigações em torno dos desvios praticados na estatal Petrobras, em particular, as informações contidas nos depoimentos do ex-diretor da empresa Paulo Roberto Costa, agora delator dos descaminhos que ajudou a promover.

   Na opinião da presidente, claramente irritada com o episódio, não está certo a imprensa noticiar fatos, relacionados a investigações em curso, antes mesmo que o seu gabinete seja informado dos pormenores do caso.

   Ora, as notícias constrangedoras devem antes passar pelo crivo da autoridade pública? De que diabos estamos aqui falando, de censura prévia do Executivo a informações que lhe possam ser negativas ou potencialmente nocivas? A regra valeria também para as demais instâncias e esferas do Poder Público?

   A presidente não consegue entender que o pressuposto da informação jornalística é a investigação – ou a apuração dos fatos, para usarmos o jargão profissional. Leviano seria noticiar sem levantar fatos e ouvir versões, não importando as fontes. E isso não significa que o trabalho seja sempre bem executado, que a investigação, por vezes, não contenha imperfeições.

   Jornalistas e meios de comunicação, que fique bem claro, também erram, e por diferentes razões. Muitas vezes erram por falta de qualificação de seus profissionais para abordar temática mais técnica no calor dos acontecimentos. Erram ainda pela imperativa busca da síntese, que elimina nuances. Erram também pelo fato de o jornalismo ser uma atividade intelectual inserida num processo industrial de alta intensidade, com premência de prazos, o que propicia falhas de toda ordem. E, claro, erram até por má-fé. Mas erra-se em todas as profissões, por que com o jornalismo haveria de ser diferente?

   O possível erro não pode justificar a censura genérica, que seria inconstitucional. Nunca é demais lembrar que o Brasil é signatário do Tratado de Chapultepec, segundo o qual a imprensa livre é condição fundamental para que as sociedades promovam o bem estar de seus povos.

   Sempre que cometem erros e abusos, jornalistas e meios de comunicação estão sujeitos à Lei, e não poderia ser diferente. Respondem, civil e penalmente, por danos causados à imagem e mesmo ao patrimônio dos ofendidos. Cabe lembrar que a liberdade de expressão, direito fundamental (previsto em nossa Constituição e nas constituições de mais de 90 nações democráticas) do qual deriva a liberdade de imprensa, não autoriza a injúria, a calúnia e a difamação. E isso por si só é um poderoso mecanismo de prevenção ao erro, de contenção dos excessos.

   Quando divulga as falcatruas na Petrobras, a imprensa está exercendo livremente o seu papel, ainda que possa, em paralelo, estar cometendo erros. Então, que permaneça livre. Se a presidente da República queria ter acesso prévio ao depoimento do delator, paciência. O que a sociedade quer é transparência, pouco importando o seu melindre. A propósito, o que temer?

   Convém dizer que, num país que preza a sua democracia (o que não é inequívoco entre nós), a preocupação não deve ser apenas quanto a possíveis tentativas de cerceamento feitas pelo Executivo. Deve-se também zelar para que não haja uma escalada da “judicialização” da censura. Se hoje não estamos sujeitos à censura formal que caracterizou períodos de exceção política, assistimos a um preocupante aumento dos vetos judiciais por antecipação (censura prévia decorrente de processos), com 28 novos casos apenas no período de agosto de 2011 a agosto deste ano, de acordo com a ANJ – Associação Nacional dos Jornais (para mais detalhes sobre o cerceamento do trabalho da imprensa, ver quadro em anexo e texto da ANJ no link abaixo deste artigo).

imagemquadroimprensa

   Voltemos ao Executivo. Da maneira como expressou seu, digamos, raciocínio, a presidente Dilma Rousseff deu a entender que o trabalho da imprensa deve se restringir ao “repeteco” de versões oficiais. A imprensa deveria, por essa ótica canhestra, se restringir ao press release produzido pelas assessorias de imprensa dos Ministérios e diferentes órgãos governamentais. Mas o jornalista não pode – e não deve – ser um mero repetidor de versões oficiais, um compilador de declarações entre aspas.

   A impressão que fica da declaração, portanto, é que, no entendimento deste governo, jornalismo é divulgação, ou seja, é um trabalho atrelado à propaganda, ao marketing e às relações públicas. Nada contra essas atividades – muito ao contrário – mas jornalismo, definitivamente, não é isso. A propósito, alguém já disse, com certo exagero, que jornalismo é tudo que contraria os governantes – o resto é propaganda.

   Karl Marx dizia que a imprensa era o “olhar onipresente do povo sobre seus líderes e governantes”. A sentença permanece verdadeira, mas, nos países marxistas, valeu apenas enquanto a “burguesia” não era desalojada do Poder. Depois, prevaleceu a regulação da liberdade de expressão e outros eufemismos que querem nos impingir. Em Cuba, um único jornal de abrangência nacional, o Granma, órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista, incumbe-se da “propaganda”. Mas, convenhamos, Cuba não pode ser um modelo para o Brasil.

   Antes de Marx, Thomas Coolley, constitucionalista americano, dizia que a importância capital da imprensa era “trazer perante o tribunal da opinião pública qualquer autoridade, corporação ou repartição”. Sim, porque, se verdadeiramente livre, a imprensa garante transparência aos atos do Poder Público, exercendo um papel preponderante sobre as estruturas institucionais e políticas, sendo a sua importância funcional comparável aos Poderes constituídos, como bem lembrou Norberto Bobbio, ao cunhar o termo “Quarto Poder”. Goste ou não a presidente Dilma Rousseff!


Link para texto da ANJ sobre cerceamento do trabalho da imprensa:

http://www.anj.org.br/images/public_docs/relatorios_liberdade/RELATRIO%20DE%20LIBERDADE%202012-2014.pdf

 
<< Início < Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo > Fim >>

Página 3 de 19